Me deparei com esta pretensa definição de homofobia acompanhada da tirinha. Elas formam um excelente exemplo do que acontece nas idéias opositoras à nossa cultura e nos movimentos contra estruturas de opressão quando não se toma cuidado para atender a interseccionalidade de TODAS as estruturas de opressão. Ao esquecer disto, acaba se tentando oprimir a opressão, como apagar fogo com mais fogo.
Neste caso, num explícito reducionismo equivocado, tenta-se redirecionar a opressão que o outro sofre - os homossexuais - à opressão que ela sofre - a mulher. Tamanho é o absurdo dessa sentença que ela ignora a homofobia sofrida pelas próprias mulheres homossexuais, as lésbicas, colocando como se a homofobia não às englobasse e oprimisse.
Usando a lógica de exclusão mútua da sociedade capitalista - a opressão de classes - exclui-se outras lutas em nome da própria. Nesse pensamento, o simples fato existir uma opressão exclui a possibilidade das demais. Tudo é exclusivo em nossa cultura: um namorado exclui o outro, uma ideologia exclui a outra, um trabalho exclui o outro, um produto comprado exclui o outro. No fim só pode haver um vencedor.
Outra evidência clara de recuperação capitalista neste caso é a fetichização da opressão. Transformam-na num produto, um commodity a ser negociado no mercado ideológico. No modus operandi mercadológico o que reina é a competição. Portanto, no pensamento commoditificado, qualquer outra luta torna-se imediatamente um potencial inimigo que está ali para roubar o mercado tão suadamente conquistado.
Daí, como reflexo deste funcionamento mercadológico, a militante age na direção de eliminar a opressão concorrente. Este exemplo escancara tal intenção de forma até caricaturística. É óbvio que a homofobia vai muito além do medo de ser tratado como se trata as mulheres, apesar de provavelmente ser um dos motivos para uma fração dos homofóbicos. Há muitos outros motivos como a ameaça à identidade e à superioridade masculina, perda de status social, do respeito da família, recalque etc. Desnecessário a este texto esmiuçar as causas do fenômeno.
O ponto é que: enquanto a prática constante da competição e da exclusão não for completamente abandonada em nome da colaboração, empatia e da coletividade, não haverá luta capaz de acabar com a cultura de opressão. Será sempre trocar uma opressão por outra. Trata-se de observar a intersecção com a cultura mercadológica. Não é fácil, pois somos educados e estimulados desde cedo a reproduzir esta cultura doente. Mas quem disse que seria fácil?
Agora, se a intenção não for acabar com as opressões, mas sim tomar o bastão do opressor para si, virando o jogo ao invés de acabar com ele, nada dito aqui vale de alguma coisa.
"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor." (Paulo Freire)Obs.: por favor, não utilizar da lógica exclusivista para afirmar que desconsidero a violência sofrida pelas mulheres.


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