segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

É fácil

É muito fácil desconsiderar os fatores culturais, sociais e econômicos e culpar a "natureza humana", culpar o indivíduo e sua, supostamente, inata personalidade ruim. Isso nos livra da responsabilidade sobre as consequências, do dever de refletir sobre. Nos livra da obrigação de realmente fazer algo. Tira o peso das costas.

É fácil culpar a mulher que foi violada dizendo que ela estava vestida como uma "vadia", estava provocando, estava no lugar errado. Ficamos livres da culpa de que objetificamos a mulher em cada comercial de cerveja que a equipara com um bem consumível, em cada fala que as desconsidera como sujeito, cada detalhe linguístico que constrói essa hierarquia de gênero. Assim não temos a responsabilidade de repensar nossos atos, nos esforçar para livrarmos-nos do machismo, reeducar nossos filhos a pensarem fora da caixinha patriarcal.

Também é fácil culpar o pobre, taxá-lo de preguiçoso, vagabundo, bandido e mandá-lo para longe. É fácil querer exterminar os ditos bandidos e nos livrar de ter que pensar quais são as reais causas que levam a pessoa a cometer o delito. É falta de caráter - dizemos. Então podemos esquecer que construímos uma sociedade que implica na desigualdade virulenta. Uma cultura que bombardeia o pobre com propagandas, que dizem-nos que só serão socialmente bem sucedidos quando tiverem o nível de consumo dos ricos, sendo que é exceção conseguir sair da pobreza. Não há oportunidades iguais, nem desiguais, simplesmente não há oportunidades.

Fácil atacar o negro e o índio, falando que eles buscam privilégios ao obter ações afirmativas como cotas e penas contra o racismo. Assim nos livramos do peso da culpa de ter invadido e saqueado a terra dos índios, praticando um genocídio, destruído suas florestas e cultivado imensidões de cana-de-açúcar com a força de trabalho dos negros que buscamos à força na África. Libertamos-nos, então, há um pouco mais de um século. Daí basta soltá-los na sociedade, que eles terão oportunidades iguais de se desenvolver - dizemos.

Nota-se que somos realmente excelentes em encontrar o caminho mais fácil. Agora resta saber quando seremos bons em encontrar o caminho mais justo.

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