sábado, 7 de dezembro de 2013

Opressão com 30% de desconto à vista



Me deparei com esta pretensa definição de homofobia acompanhada da tirinha. Elas formam um excelente exemplo do que acontece nas idéias opositoras à nossa cultura e nos movimentos contra estruturas de opressão quando não se toma cuidado para atender a interseccionalidade de TODAS as estruturas de opressão. Ao esquecer disto, acaba se tentando oprimir a opressão, como apagar fogo com mais fogo.

Neste caso, num explícito reducionismo equivocado, tenta-se redirecionar a opressão que o outro sofre - os homossexuais - à opressão que ela sofre - a mulher. Tamanho é o absurdo dessa sentença que ela ignora a homofobia sofrida pelas próprias mulheres homossexuais, as lésbicas, colocando como se a homofobia não às englobasse e oprimisse.

Usando a lógica de exclusão mútua da sociedade capitalista - a opressão de classes - exclui-se outras lutas em nome da própria. Nesse pensamento, o simples fato existir uma opressão exclui a possibilidade das demais. Tudo é exclusivo em nossa cultura: um namorado exclui o outro, uma ideologia exclui a outra, um trabalho exclui o outro, um produto comprado exclui o outro. No fim só pode haver um vencedor.

Outra evidência clara de recuperação capitalista neste caso é a fetichização da opressão. Transformam-na num produto, um commodity a ser negociado no mercado ideológico. No modus operandi mercadológico o que reina é a competição. Portanto, no pensamento commoditificado, qualquer outra luta torna-se imediatamente um potencial inimigo que está ali para roubar o mercado tão suadamente conquistado.

Daí, como reflexo deste funcionamento mercadológico, a militante age na direção de eliminar a opressão concorrente. Este exemplo escancara tal intenção de forma até caricaturística. É óbvio que a homofobia vai muito além do medo de ser tratado como se trata as mulheres, apesar de provavelmente ser um dos motivos para uma fração dos homofóbicos. Há muitos outros motivos como a ameaça à identidade e à superioridade masculina, perda de status social, do respeito da família, recalque etc. Desnecessário a este texto esmiuçar as causas do fenômeno.

O ponto é que: enquanto a prática constante da competição e da exclusão não for completamente abandonada em nome da colaboração, empatia e da coletividade, não haverá luta capaz de acabar com a cultura de opressão. Será sempre trocar uma opressão por outra. Trata-se de observar a intersecção com a cultura mercadológica. Não é fácil, pois somos educados e estimulados desde cedo a reproduzir esta cultura doente. Mas quem disse que seria fácil?

Agora, se a intenção não for acabar com as opressões, mas sim tomar o bastão do opressor para si, virando o jogo ao invés de acabar com ele, nada dito aqui vale de alguma coisa.
"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor." (Paulo Freire)
Obs.: por favor, não utilizar da lógica exclusivista para afirmar que desconsidero a violência sofrida pelas mulheres.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

É fácil

É muito fácil desconsiderar os fatores culturais, sociais e econômicos e culpar a "natureza humana", culpar o indivíduo e sua, supostamente, inata personalidade ruim. Isso nos livra da responsabilidade sobre as consequências, do dever de refletir sobre. Nos livra da obrigação de realmente fazer algo. Tira o peso das costas.

É fácil culpar a mulher que foi violada dizendo que ela estava vestida como uma "vadia", estava provocando, estava no lugar errado. Ficamos livres da culpa de que objetificamos a mulher em cada comercial de cerveja que a equipara com um bem consumível, em cada fala que as desconsidera como sujeito, cada detalhe linguístico que constrói essa hierarquia de gênero. Assim não temos a responsabilidade de repensar nossos atos, nos esforçar para livrarmos-nos do machismo, reeducar nossos filhos a pensarem fora da caixinha patriarcal.

Também é fácil culpar o pobre, taxá-lo de preguiçoso, vagabundo, bandido e mandá-lo para longe. É fácil querer exterminar os ditos bandidos e nos livrar de ter que pensar quais são as reais causas que levam a pessoa a cometer o delito. É falta de caráter - dizemos. Então podemos esquecer que construímos uma sociedade que implica na desigualdade virulenta. Uma cultura que bombardeia o pobre com propagandas, que dizem-nos que só serão socialmente bem sucedidos quando tiverem o nível de consumo dos ricos, sendo que é exceção conseguir sair da pobreza. Não há oportunidades iguais, nem desiguais, simplesmente não há oportunidades.

Fácil atacar o negro e o índio, falando que eles buscam privilégios ao obter ações afirmativas como cotas e penas contra o racismo. Assim nos livramos do peso da culpa de ter invadido e saqueado a terra dos índios, praticando um genocídio, destruído suas florestas e cultivado imensidões de cana-de-açúcar com a força de trabalho dos negros que buscamos à força na África. Libertamos-nos, então, há um pouco mais de um século. Daí basta soltá-los na sociedade, que eles terão oportunidades iguais de se desenvolver - dizemos.

Nota-se que somos realmente excelentes em encontrar o caminho mais fácil. Agora resta saber quando seremos bons em encontrar o caminho mais justo.